Havia ali alguma coisa irresistível

Havia ali alguma coisa irresistível

Esta semana, durante a chamada no início da aula, mandei logo sair dois matulões. No hard feelings mas estamos na recta final dos ensaios da peça de Teatro e sem guião não fazem cá nada. Shô!

Foi dia de ensaio de uma das cenas mais difíceis de todo o musical: Maria e Tony cantam o Tonight, para quem não sabe, uma música romântica, linda de morrer e capaz de fazer corar qualquer pessoa.

Pois bem, agora imaginem dois adolescentes que têm de cantar e representar este belo desafio, à frente de cinquenta amigos… Risos, vergonhas, “não-consigos”… E ouve-se uma voz lá ao fundo:

– Tu achas que conquistas alguma miúda assim?

Era um professor que nos dá uma grande ajuda. Enquanto eu dizia como e o que deveriam fazer, o professor  convocou-os para o significado potente da experiência que estavam a fazer.

– Deem as mãos. Desculpem, eu sei que é difícil. Mas experimentem…

Devagarinho, os risos e as vergonhas foram desaparecendo. O professor continuou a conduzi-los na experiência da Maria e do Tony com perguntas sobre a vida. Sobre as suas vidas.

Nós assistimos a uma cena maravilhosa porque um professor soube fazer o seu trabalho, isto é, pôr os seus alunos em ligação com o significado do que tem para lhes propor, em vez de lhes dizer esquemas, estruturas, categorias e técnicas para lidar com o conhecimento.

Assistimos nós e assistiram os bandidos sem guião que, em vez de aproveitar a tarde livre, entraram à socapa na aula de onde tinham sido expulsos, porque não queriam perder aquele momento. Havia ali alguma coisa irresistível.

Era aquela vertigem que a educação, quando é verdadeira, traz sempre consigo…

Catarina Almeida