Por que é que certas coisas acontecem?

Por que é que certas coisas acontecem?

Passamos a vida a pensar “por que é que certas coisas acontecem?”

Cá para mim mais valia perguntar para que é que acontecem…

O Centro [Mais] nasceu por causa de uma criança concreta. Tinha sete anos, uma história cheia de feridas com consequências emocionais graves, dificuldades de aprendizagem e outras perturbações. Uma mãe extremosa, professores responsáveis e próximos… mãos à obra.

Para esta criança frágil arranjou-se uma “professora só para ele”, que lhe dissesse todos os dias que ele tem um valor infinito, que é uma maravilha, mesmo quando partia a escola toda. Disse-lhe que ele é muito mais do que o mal que não conseguia controlar. Dia após dia, semana após semana. Pequenos passos, muita paciência, muita confiança mútua entre adultos. Foi reintegrado devagarinho na turma, conquistou amizades e cresceu.

Cresceu ele e cresceu o Centro [Mais]. À medida que acompanhávamos este “fundador”, começámos a reparar que a intuição original de ir ao encontro das fragilidades e das feridas com um olhar inteiramente humano (e não apenas técnico) podia ajudar mais crianças.

E assim fomos crescendo, ajudando, intervindo, respondendo aos desafios que fomos encontrando.

Um dia, a “professora só para ele” encontrou um desafio maior e bonito a valer. Casou-se e foi viver para outro país. O que fazer? Nem foi preciso esperar muito… Fomos pedir ajuda à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que apoiou este projecto; fundamentámos a nossa hipótese, apresentámos possibilidades e recursos. Começámos a trabalhar com ainda maior afinco.

Desta vez com outra professora tão boa e tão diferente. Trouxe o seu cunho, a sua formação e começámos a reparar que havia mais por descobrir. Introduzimos novos aspectos e passámos a trabalhar com educadoras e professores e a promover a psicomotricidade desde a Creche. Assim – dizem os estudos – contribuímos para uma infância mais completa e mais feliz, de crianças que serão os homens e mulheres de amanhã.

Aquela criança ferida, aquela professora, a outra professora, os desafios diferentes e constantes, as nossas tentativas corajosas e ousadas, mas também ingénuas e irónicas…

O Centro [Mais] apoiou este ano 83 crianças entre os oito meses e os onze anos, através de abordagens psicomotoras de qualidade, de intervenção em dificuldades de aprendizagem, acompanhamento em perturbações do desenvolvimento.

É uma coisa séria, com uma dimensão relevante. Mas nasceu de feridas grandes, de obstáculos que às vezes pareciam intransponíveis, de dores que foram lancinantes.

O Centro [Mais], no fundo, é como a nossa vida.

Catarina Almeida