O Requiem e as competências

O Requiem e as competências

Fui ouvir o Requiem de Mozart à Gulbenkian. Um amigo querido cantou no coro e proporcionou-se a situação ideal para um programa que tantas vezes quero fazer e que acaba por cair na preguiça ou no esquecimento. Desta vez fui e ainda bem.

Se bem me lembro do pouco que estudei de solfejo, as pautas têm indicações claríssimas: as notas, os tempos e os contratempos, as dinâmicas, os compassos… Seria suficiente cada músico e cada coralista tocar e cantar exactamente o que está escrito na pauta para interpretar o Requiem de Mozart? O que é que o maestro está lá a fazer?

Os meus conhecimentos são insuficientes para saber mais sobre este tema; no entanto, pensei imediatamente numa questão sempre actual em educação: o que importa são as competências, o professor deve ser orientador e mediador (e não alguém que tem a responsabilidade de conduzir os alunos), não é preciso aprender conteúdos mas sim desenvolver habilidades e capacidades… Blá blá blá.

Ao pensar na sala de aula como um concerto com coro e orquestra, clarificaram-se algumas questões.

  • Suponho que nenhum músico toque o Requiem para desenvolver a sua competência… Ver tocar o Requiem, ouvir cantar o Requiem ajuda a perceber que as competências são instrumentais, não são objectivos. São necessárias e devem ser rigorosamente estudadas e aprofundadas, mas tendo em vista a sua finalidade.
  • Além disso, as competências nem sequer são suficientes… Ainda que todos tocassem impecavelmente o que está escrito na pauta, faltaria sempre a alma daquela experiência, que é dada pelo maestro. O maestro não orienta, não é mediador. É mestre, faz acontecer o Requiem. Faz acontecer uma experiência de beleza que sobressalta o meu coração. E sobressalta também o dos músicos, dos coralistas, dos solistas.

Penso que ninguém terá saído da Gulbenkian a dizer: “o violoncelista não falhou nota nenhuma!” ou “os tenores acertaram todos os tempos!”. Vi, porém, muitas pessoas a dizer: “que beleza!”, “que maravilha”, “que coisa incrível!”.

Eis a diferença de potencial que está em jogo na escola do século XXI: queremos concertos com músicos a reproduzir uma pauta ou a tocar o Requiem de Mozart…? Queremos que os alunos sejam competentes ou que possam viver a vertiginosa aventura do conhecimento?

 

Catarina Almeida