Para ver os campos e o rio

Para ver os campos e o rio

Na última aula de literatura portuguesa, dei por mim a olhar para o relógio redondo ao lado do quadro e a pensar que ainda faltava imenso tempo. Voltei a olhar para a professora, que falava apaixonadamente sobre a melancolia no prólogo de Menina e Moça e perguntei-me: mas de que é que estou à espera quando desvio o olhar para o relógio? Da aula que vem a seguir? Do intervalo? Porquê?

Interessa-me realmente o que oiço nas aulas. Há poucas coisas que me encantam mais do que percorrer os versos de um poema ou as aventuras de uma história. Às vezes leio uma vez, só pela beleza do que se diz, outras estudo cada palavra ao pormenor. Mas surpreendo-me sempre quando penso que não são só letras impressas. Há uma pessoa ali. Ler é sempre um diálogo com alguém. E o espanto ainda é maior e mais verdadeiro quando, depois de lermos sozinhos, temos a professora a conduzir-nos pelos caminhos do texto, a propor-nos ver o que não víamos ou até a pedir que questionemos a interpretação que nos mostra.

Era tudo isto, mais entusiasmante ainda, que estava a acontecer naquela aula. E, mesmo assim, olhei para o relógio. Porquê? Disse Pessoa que “não basta abrir a janela/ Para ver os campos e o rio”. Aliás, não basta nem abrir a janela, nem ter uma pessoa a apontar para os campos e para o rio apaixonadamente. Continua a ser meu o papel de aderir livremente. Posso estar diante do maior acontecimento da história e não o ver. A educação é, de facto, relação. Implica dois que estejam verdadeiramente lá, e não a olhar para o relógio a refletir sobre a razão de o estarem a fazer. Mas até a distração pode ser uma oportunidade. Olhei então para a professora outra vez, desta vez com uma consciência nova.

Constança Duarte