Do tamanho dos que têm coração

Do tamanho dos que têm coração

Nas últimas semanas, tenho lido e relido quase diariamente a peça Antes de Começar, de Almada Negreiros.

“(…) O BONECO — Deus fez-nos um coração para não sermos tão pequenos como nós…

A BONECA — Mas é que não tenho forças para ele! Ele é grande de mais para mim! Tu já reparaste bem como eu sou pequenina?

O BONECO — Tu és do tamanho dos que têm coração.

A BONECA — Ah!… é assim, juro-te, é exatamente assim como tu estás a dizer!… mas a hora não chega!… Eu saberei esperar… mas o tempo não espera!..

O BONECO — Assim, é não saber esperar!

A BONECA — Eu por mim não me importo… mas o coração?

O BONECO — O coração espera por nós! (…)”

 

Esta semana, aconteceram vários episódios que me voltaram a colocar diante da questão do “coração”… Em especial, uma criança de cinco anos, no fim do primeiro ensaio para a festa de Natal, vem ter comigo chorosa e pergunta-me:

– Porque é que eu não posso ver Jesus?

Lá lhe dei a resposta nº 47 do manual (correctíssima, atenção!) e ele continuava a olhar para mim.

– Sim…?

– Mas eu, eu, porque é que eu não posso ver Jesus?

Fiquei a pensar que ele não me perguntou por que razão não “se” pode ver Jesus mas porque é que ele, a pessoa dele, os olhos dele não podem ver Jesus.

Benditas criancinhas que sabem que somos do tamanho dos que têm coração, mesmo quando somos pequeninos, ou melhor, mesmo para não sermos pequeninos. E, como o tempo não espera, a pergunta urgente é sobre mim. Devagarinho descobre-se que sim, que o coração espera e não se rende a respostas mais pequenas que o seu tamanho.

Seria bom que nas nossas casas e nas nossas escolas, nos livros que propomos às crianças, na maneira como nos tratamos, nas actividades que organizamos, enfim, em tudo nos lembrássemos que eles e nós somos do tamanho dos que têm coração. E dos grandes…

Catarina Almeida