O clima e aqueles jovens de coração vivo

O clima e aqueles jovens de coração vivo

Manifestação de estudantes #FridaysForFuture (LaPresse)

Traduzimos e reproduzimos o editorial de 18 de Março 2019 do portal italiano www.ilsussidiario.net

Desde que o movimento “no global” mudou de pele e se fundiu com os protestos contra os governos nacionais daquela época, no inverno de 2002, identificando o seu objectivo com o pedido de “paz”, desde aí que os jovens não iam tão numerosos para a rua, sem enquadramento de partidos, movimentos e associações, de forma tão livre.

Nessa altura, havia as bandeiras arco-íris, os slogans contra a América de Bush que, depois do 11 de setembro, estava debaixo de fogo, primeiro com o Afeganistão e depois com o Iraque; havia a velha contraposição entre direita e esquerda, entre republicanos e conservadores, entre democratas e progressistas, ao ponto de muitas reivindicações daquela época recordarem as de 1968, num contexto de “luta contra o sistema” que encostava os manifestantes à onda pós-ideológica dos movimentos marxistas.

Hoje em dia, quinze anos depois, as coisas mudaram muito: há mais de uma década que os miúdos se voltaram a ocupar com reformas deste ou daquele ministro, com o aquecimento, com exames nacionais… os movimentos marxistas propriamente ditos foram superados pela história e, mesmo aos olhos do observador mais distraído, impôs-se um contexto mundial radicalmente novo.

Ainda assim, eles, os jovens, ressurgiram. Com as suas faixas, as suas bandeiras, com uma vontade de existir que não pode deixar ninguém indiferente. Quando acontece numa visita de estudo, os jovens sacrificarem o momento das compras (existirá momento mais sagrado para um millennial sugestionado pelos influencers da vulgata comum?), sacrifício feito para se unirem a coetâneos de outras nacionalidades e irem manifestar-se silenciosamente por um mundo onde “assim não dá”, então quer dizer que alguma coisa se move, alguma coisa está a acontecer. E impressiona ver como os adultos, exactamente como há 15 anos atrás, se apressam a explicar aos miúdos que a sua causa é estúpida, fruto de políticas manipulatórias e conspirações, desempenho útil para quem não tem vontade de estudar.

É impressionante porque ninguém quereria que o seu próprio desejo, qualquer desejo, fosse tratado assim. Mas, no fundo, semelhantes reacções conduzem-nos ao coração da crise do adulto de hoje que, reagindo nestes termos ligeiramente sabichões, perde a melhor parte do que está a acontecer e acaba num beco sem saída, cuja solução será, na melhor das hipóteses, um congresso sobre a crise do adulto, num eterno falar de si próprios que não consegue dar importância aos jovens, os que existem e nos interpelam.

Permitam-me, pois, antes de dizer mais coisas sobre os jovens, pedir-vos que se detenham, fiquem um instante em silêncio e tentem fazer estas coisas simples: deixem-se espantar com o facto de estes miúdos ainda desejarem alguma coisa, espantem-se sem sindicar sobre “o que” desejam, espantem-se por o desejo ainda existir, vocês que os davam como mortos e, afinal, ainda ali estão, vivos, fora da gruta onde os tínhamos perdido.

Depois de se terem espantado com isto, tentem não corrigir o desejo deles, tentem não julgá-lo, tentem deixar-lhe espaço, dar o benefício da dúvida àquele desejo, de que talvez se assemelhe aos vossos velhos desejos, mesmo parecendo mais confuso, muito mais desarrumado: não se ocupem com a manicure dos desejos, deixem-nos desejar.

E depois, chegamos ao ponto mais difícil, parem de lhes dizer como poderão vir a ser manipulados ou derrotados, mas contem-lhes como é que vocês foram manipulados ou derrotados. Antigamente, os homens reuniam-se à volta da fogueira para contar feitos heróicos: nós hoje precisamos de uma geração de adultos que restitua aos jovens a possibilidade – a beleza! – da derrota, do erro, de quando também nós fomos enganados e tivemos de nos levantar.

Deixem que o miúdo que se manifesta na rua encontre o miúdo que existe dentro de vocês, permitam que falem entre si, que pertençam um ao outro, que chorem juntos, que esperem, que rezem, que voltem a sentir-se irmãos. Permitam que estes jovens curem as vossas feridas antigas, não deixem que a dor que vivem desde então se torne violência que oprime e sufoca este seu movimento de liberdade, de rebelião, de vida que – contra tudo e contra todos – ainda existe e que vocês conhecem tão bem. Porque o viveram. E talvez tenham pago muito caro por ele.

Por fim, se chegaram a este ponto e vos interessa ainda encontrar aqueles miúdos, lembrem-se que a vida traz sempre consigo uma ilusão: como se as grandes guerras, as grandes batalhas, fossem em campo aberto ou nos gabinetes do poder. Pelo contrário, vocês perceberam que a grande guerra acontece dentro de vocês, está dentro do coração e da alma de cada um de nós. Há quinze anos, muitos se manifestavam pela paz: mas quem encontrou paz para o seu coração? Não estará o nosso mundo em guerra porque ainda existe guerra dentro de nós? Hoje em dia muitos se erguem para proteger a terra, mas quem se vai levantar amanhã de manhã para proteger a terra maravilhosa que nos foi confiada e que está dentro de cada um de nós, ameaçada pela droga, pela agitação, por um desejo de morte que faz derreter os glaciares e enche o nosso coração de plástico, de lixo? Na vossa opinião, do que precisam aqueles jovens? De ouvir dizer mais uma vez que estão errados ou de alguém que os leve a sério? A posteridade dirá a sua sentença.

Federico Pichetto

© ilsussidiario.net

original aqui

tradução nossa