Que ele não falte amanhã

Que ele não falte amanhã

– Onde está o vosso companheiro? – perguntou ele. – Aquele que eu pus em cima da árvore.

O Gigante gostava muito dele porque o tinha beijado.

– Não sabemos nada dele – responderam as crianças. – Foi-se embora.

– Se o virem, digam-lhe que não falte amanhã.

As crianças responderam que não sabiam onde ele morava e que antes nunca o tinham visto; o Gigante ficou muito triste.

in O Gigante Egoísta, Oscar Wilde

É Primavera, o jardim está finalmente alegre e florido, o Gigante é bondoso. Está tudo nos “conformes”. Está tudo como é suposto. 

Ele era egoísta, deixou de ser, veio a Primavera, vitória, vitória, acabou-se a história. Happy endings é o que todos queremos…

Só que o Gigante está muito triste. Desapareceu o menino pequenino que o tinha comovido, que lhe tinha tocado o coração! Ninguém sabe onde ele está, ninguém o viu. 

Então afinal não basta a Primavera ter chegado e o Gigante já não ser egoísta? Já estava tudo bem, já se tinha composto o que era preciso. Estavam lá tantas crianças a brincar, as pessoas que passavam viam este maravilhoso espectáculo e, ainda assim, não era suficiente para satisfazer o Gigante.

Como nós… passamos a vida a arrumar o jardim, na ilusão que o nosso fazer coisas (boas, até!) e sermos pessoas boas (até!) vai finalmente resolver os problemas – os nossos e os do mundo.

Se o virem, digam-lhe que não falte amanhã. 

Eis o grande mistério deste jardim e dos nossos jardins. De que nos serve um jardim bonitinho e arranjado sem o menino que sobressalta o nosso coração?

O Gigante já tinha aberto o jardim, já tinha derrubado o muro, e já nem era egoísta… Podia estar tudo resolvido! Parece que afinal o assunto não é o esforço dele, a capacidade dele, o limite dele… O que ele quer mesmo saber é onde está aquele menino. Por causa daquela relação, deu-se conta que era egoísta, abriu o jardim e chegou a Primavera. 

Ao Gigante, o que faz falta é a presença daquele menino, é uma relação. É muito bonito deixar de ser egoísta porque o coração se comoveu com o menino, mas a vertigem está em desejar aquela relação, que o menino esteja no seu jardim.

Sem falsos romantismos, todos sabemos que uma relação dá trabalho e chega a ser maçadora porque não deixamos de ser egoístas de uma vez por todas, nem deixamos de ser gigantes de uma vez por todas. Porque nos põe em causa, porque numa relação nada é automático nem mecânico e arrisca-se muito. E é bom que seja assim. 

No fundo, desejamos todos dizer de alguém, como o Gigante, que ele não falte amanhã…

Catarina Almeida