Uma espécie bóia encarnada, por Francisco Guimarães

Uma espécie bóia encarnada, por Francisco Guimarães

Estado de emergência: dia 4

Foi domingo (acho eu, não sei bem a quantas ando).
O domingo é aquele dia em que costumamos estar com a família. Às vezes queremos estar, outras vezes somos forçados a estar, mas estou seguro que é sempre bom. Acima de tudo, porque invocámos o uso da obediência no momento certo, confiando nas pessoas que pediram esse quadradinho ocupado, riscado a preto, no calendário de cada um. Estivemos a semana inteira a trabalhar, agarrámos o sábado com toda a força para estarmos com os amigos e aquele dia que antecipa uma nova semana está guardado para os que têm o sangue pintado da mesma cor que o nosso.

Apesar de ter sido domingo, estou a aprender a viver cada dia como se juntassem todos num dia só – a sexta-feira a querer ser segunda e o sábado fingir que é terça, numa mistura tão absoluta e complexa, estranha e confusa, em que a meio de uma chamada para o trabalho, falo com amigos, respondo à minha mãe que clama para que a minha pontualidade se sente à mesa, leio, escrevo e, no meio deste turbilhão, acontecem coisas simples, inesperadas e bonitas.

No outro dia estava à conversa com um amigo meu, o Vasco. Não falamos muito durante o ano, nem nos encontramos muitas vezes, só no verão e pouco mais. Ele está assustado, como todos nós estamos, com medo. Desse medo brotou uma inquietação, uma ânsia por companhia e uma alegria resultante da minha presença. Mal sonhava ele que eu também precisava de uma cara como aquela no ecrã do meu telemóvel, de um braço estendido, muito mais potente do que qualquer anti-inflamatório.

É de uma forma ainda impenetrável e estranhamente paradoxal que olho para estes tempos. Pedem-me distância, imploram para que eu me afaste, suplicam para que eu não dê um abraço…!
E, como resposta a essa tempestade, com recurso a uma pequena câmera que faz de nós seres aparentemente virtuais, aparece uma família de sorrisos que me chama para jantar, um amigo que pega na guitarra e começa a tocar (e nem o “delay”, típico de uma internet que precisa de ser renovada, o consegue parar), um grupo de amigos que se reúne para fazer um “quizz”, para beber uma cerveja ou para assistir a um jogo da Liga dos Campeões, e um grupo de amigos que se junta apenas para dizer “presente!”.

E essa presença, muitas vezes, é tudo. É uma espécie bóia encarnada que diz “salva-vidas”. São corações a gritar em uníssono através da simplicidade que fazem a vida fermentar.

Francisco Guimarães