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Não me lembro se o meu primeiro contacto consciente com um vírus foi por via de uma maquineta tecnológica ou se, de facto, o frio que estava na rua superava as expectativas de um jovem que não ouviu os conselhos da mãe para vestir alguma coisa por cima da t-shirt. Mas lembro-me de que sempre que carregava num botão errado do meu computador, ele apitava ininterruptamente e ralhava comigo, furibundo, lançando palavrões em forma de caracteres brancos e desconhecidos, por cima de uma tela preta.

Sempre que isso acontecia, ligava para o Sr. João e, remetendo a responsabilidade para um profissional treinado, pedia-lhe encarecidamente que me resolvesse o problema que eu próprio tinha fabricado.

Este vírus não é como os da minha infância. Não partiu de mim, já não há Sr. João para o Covid-19 e os meus pais não me oferecem a reparação. Mas, de um modo ainda insondável e misterioso, ele pertence-me! É verdade que existem médicos, enfermeiros, psicólogos, padres e outros tantos que, cada uma à sua maneira, têm sido verdadeiros heróis. Mas hoje, ao olhar para os meus tios e para a minha avó, percebi que o raio do vírus tem de ser combatido por cada um de nós.

A minha avó, que por causa de umas malditas tonturas não pode levantar muito o pescoço, abriu a porta e olhou o céu para saber dos netos que estavam na varanda do 1º andar, e os meus tios, que com os seus 70 e tal anos, arriscaram a própria vida para nos dar um chocolate.

“Ou protagonistas ou ninguém”. Esta era uma frase que estava afixada nas paredes da minha escola e que não me canso de repetir. É-me útil para relembrar que este é o tempo de me dar, inteiro, mesmo com medo e com cautela, vestindo a máscara, calçando as luvas e usando o gel como arma de fogo. Este é o tempo me preparar para atravessar a porta verde de minha casa para sentir o cheiro novo e puro do jardim.

Francisco Guimarães