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Quando se ama, por Catarina Almeida

I.

A Vera estava a disparatar. As usual: tem quatro anos e começou a descobrir que quer fazer isto e aquilo. Muitas vezes, isto e aquilo é incompatível com a ordem social. Quer ficar acordada até tarde, quer brincar com brinquedos de outros meninos, enfim, no fundo, descobriu que deseja. Descobriu que o motor da vida é o coração, experiência que até aí era apenas obediência dócil, porque coincidia com o que outros desejavam para si. 

Agora, deixou de ser assim. Ela tem o seu próprio coração e está a viver a aventura de o arriscar diante dos outros. Antes de mais, perante os adultos, que lhe ditam as regras do jogo, porque querem que ela vença. Mas ela ainda não é capaz de jogar sozinha.

– Ana, estou triste porque nunca vou conseguir cumprir todas as regras.

A Ana diz-lhe amorosamente que a desculpa por ter falhado, mas relembra que  o importante é não errar e ser capaz de fazer bem as coisas. [A Ana arrepende-se no segundo seguinte porque lhe disse um cliché que não diria a si mesma].

A Vera fica ainda mais triste porque não é capaz. Pede desculpa e – imagine-se! – desculpam-na sempre! Mas recordam-na que o que verdadeiramente importa é fazer bem, porque as desculpas não se pedem, evitam-se.

A Vera foi para a sesta a chorar.

II.

A Ana estava mesmo zangada. Tem mais trinta anos que a Vera e continua a ser incapaz de fazer as coisas bem. Como é crescida, não lhe ocorre dizer que está triste e avança violentamente de cena em cena, à procura de fazer bem as suas tarefas. Não consegue e fecha-se numa carapaça dura e rígida, sem dar a mínima hipótese de ser abraçada.

Disseram-lhe sempre que é preciso ser boa menina e ter bons valores, mas ela não é capaz. Às vezes é, claro, e outras nem por isso. Mas nem quando é capaz fica contente.

De repente, a Ana cruza o olhar com Vera que está na casinha a ser má, mas mesmo má, com um amigo. Não o deixa brincar, nem quer saber se ele ri ou chora.

A Ana comove-se porque se revê naquela pequena criatura. 

– Vera, chega cá.

– Ana, desculpe, mas eu não quero que ele esteja aqui.

– Está bem. Ou melhor, está mal [como diz o meu pai], mas eu quero que estejas aqui ao pé de mim. Queres brincar comigo?

A Vera e a Ana brincam toda a tarde: aos médicos, aos cozinheiros e até às pistas de carros, enquanto os rapazes invejam aquele lugar.

– Desculpe, Ana. E também vou pedir desculpa ao Miguel, que não o deixei brincar na casinha há bocado.

– Boa ideia!

A Vera e a Ana voltaram felizes para casa. A pequena porque era uma boa ideia pedir desculpa. A grande – que não é grande coisa – voltou feliz porque aquela miniatura a relembrou que lhe mentiram muitas vezes quando a tentaram convencer que tinha mais valor “ser capaz” do que “ser amada”.

A verdade verdadinha é que todos precisamos de ser abraçados. Mais do que precisamos de ser capazes.

Catarina Almeida