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Como os frigoríficos, por Catarina Almeida

Ontem estava a jantar com uns amigos e veio à baila a conversa de preparativos para as férias. Em todas as casas, há que tratar da limpeza do frigorífico – pelo menos uma vez por ano…

Sempre me habituei a esvaziar e descongelar tudo, para fazer uma profunda limpeza e voltar a ligar o mono gelado no último dia de férias. É um ritual quase sagrado.

Tem alguma coisa de filosófico, de comum à experiência das férias: desligar da ficha, retirar tudo, até os resquícios do que nos alimentou ao longo do ano…

Mas eis senão quando um dos meus amigos contou que o pai contrariava a nossa intenção generalizada.

– Não se desliga o frigorífico da ficha. Estraga.

Sem entrar em discussões de física quântica sobre o tema da descongelação, dei por mim a pensar que somos como os frigoríficos. 

Podemos ir de férias para esvaziar de tudo e desligar da ficha. Com espátula e tudo, para não sobrar nem um cubinho de gelo. Mas também podemos aproveitar as férias para deitar fora o que está a ficar podre, claro, mas continuar ligados à tomada.

As férias podem ser um belíssimo momento para redescobrir qual é a nossa luz, o que nos alimenta verdadeiramente, sem termos que ceder à ideia tão em voga que, para descansar, para me alegrar, para viver bem, preciso de me esvaziar dos pensamentos e dos sentimentos que não quero.

Confesso que me entusiasma mais a ideia de ser como o frigorífico ligado porque quero encher mais a minha vida e o meu coração.. Quero descansar, ler, apanhar sol e ar puro, divertir-me com a família e os amigos, quero tudo isto para encher mais a vida, mas confesso que não é um parêntesis muito diferente do resto do ano.

No fundo, preciso que o frigorífico e o meu coração continuem ligados para poder guardar e conservar tudo o que de bom, de bonito, de verdadeiro for encontrando ao longo das próximas semanas!

Boas férias!

Catarina Almeida