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O que precisamos, por Catarina Almeida

Ultimamente tenho tido dificuldade em articular ideias de fundo.

As solicitações são tantas, as exigências do dia-a-dia multiplicam-se e as “grandes respostas” ficam em segundo plano, porque as “grandes perguntas” se sucedem em catadupa e pedem muito de nós.

A vida presencial está cheia de constrangimentos e de limitações. 

Entre máscaras e viseiras, é mesmo um desafio dar aulas a crianças pequenas que precisariam de ver bem a nossa boca e as nossas expressões. Precisariam de mãos e braços e colos que garantissem aquela relação sólida que permite entrar nas aprendizagens como exploradores de um mundo sempre novo, que interpela e, muitas vezes, também assusta.

Entre distanciamento e números muito limitados de pessoas no mesmo local, é complexo conceber e organizar cursos de formação, momentos de partilha e reflexão, conferências e workshops para aprofundar os temas da educação e da cultura. Nós também precisaríamos de mais tempo uns com os outros, e com mais outros do que nos são actualmente permitidos. Para alargar horizontes e conhecer a maravilhosa diversidade que enriquece a identidade de cada um e de cada instituição.

Digo que as crianças precisariam e que nós precisaríamos! De verdade tenho pensado se é o que realmente precisamos. Explico-me.

Ontem, a professora de 1º ciclo propôs a um grupo de alunos que não avançassem nas aprendizagens porque uma colega não estava presente. Para darem os passos juntos e se sentirem parte de uma comunidade que potencia o nosso ser pessoas.

As crianças aceitaram, mas logo se viu uma mão no ar de um aluno de outro grupo. É um petiz de sete anos, ávido de saber sempre mais, de ler sempre melhor, de construir algo mais belo, que torne a sua vida mais plena.

– Professora, eu também quero esperar que o Filipe volte à escola, antes de avançar para as próximas coisas.

É preciso dizer que esta dupla se distingue por vários aspectos fascinantes, mas um deles, talvez o mais curioso, é que competem acerrimamente nas conquistas desde que têm mais ou menos dois anos. Há cinco anos das suas curtas vidas, que são amigos inseparáveis e essa amizade cresceu sempre à luz de uma concorrência lealíssima.

Pois bem, a verdade é que são companheiros de uma aventura inesquecível que se chama escola. A escola é o lugar onde se ganha a consciência do valor de aprender em comunidade. E isso chama-se amizade, sempre. A escola distingue-se por ser um lugar onde essa amizade se foca nos instrumentos necessários para saborear a beleza que nos rodeia. Engana-se quem acha que a leitura, a escrita, o raciocínio, a ciência, a cultura… enfim, que “as matérias” podem ser acessórias. Não. São exactamente o terreno onde a amizade pode cultivar belas sementes de vida.

Eu teimo em achar que precisaríamos de voltar a uma vida que já conhecíamos – a vida das “grandes respostas”. Mas ontem fui resgatada pela certeza que tudo é ocasião de crescer: é o tempo das “grandes perguntas”. Se calhar, precisamos (só!) de redescobrir que perguntas são essas e pô-las à prova neste terreno fascinante.

Catarina Almeida