Nunca os olhos falaram tanto, por Rui Corrêa d’Oliveira

O que precisamos, por Catarina Almeida
15/10/2020
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Nunca os olhos falaram tanto, por Rui Corrêa d’Oliveira

As profundas e surpreendentes mudanças provocadas pela pandemia que vivemos têm sido exaustivamente referidas, analisadas e descritas, pelo que pouco poderia acrescentar. Detenho-me porém na mais simples das mudanças: o uso da máscara.

De solução dispensável ou inútil passou em pouco tempo a procedimento obrigatório e essencial para a contenção do contágio. A máscara adquiriu o estatuto de elemento vital e adereço permanente, nivelando-se com o cartão de cidadão ou a carta de condução. Com efeito, se todo o bom cidadão não deve sair à rua sem o seu documento de identificação, nem o condutor de automóvel sem a carta de condução, o mesmo cidadão não pode agora sair de casa sem a sua máscara. 

Dei por mim a espalhar máscaras de reserva em casa, no carro e nos bolsos dos casacos, para estar sempre prevenido em qualquer circunstância e a escrever o seu nome na lista das compras. A máscara tornou-se obsessivamente presente na minha vida e ocupou um lugar proeminente nas minhas preocupações quotidianas.

Por mais estranho que pareça (e como é estranho o uso da máscara!), vou-me habituando à necessidade do seu uso e ao gesto mecânico de a pendurar nas orelhas (hábito inimaginável até há poucos meses, na minha já longa vida).

O homem é um animal de hábitos, mas este não perdeu a estranheza, o desconforto, a fealdade e a aversão que provoca, obrigando-me a um exercício permanente de juízo sobre o imperativo do seu uso.

Com frequência, dou por mim a observar as pessoas que estão à minha volta de máscara posta e não paro de me espantar como aqueles centímetros quadrados de pano transfiguraram o cenário da minha vida! Que coisa mais estranha, que visão mais anómala, que agressiva é a imagem de uma pessoa de cara meio tapada! É desumana porque desfigura o humano. Os homens e as mulheres estão diferentes, quase irreconhecíveis…

A máscara roubou-nos o sorriso e o espanto, o medo ou a zanga, a alegria e a surpresa. A máscara calou-nos porque nos des-figurou. A máscara matou o que de mais vivo tem o homem, a sua expressão.

Porém, dei-me conta que nos deixou uma última réstia de nós próprios, deixou-nos o olhar! Pendurados sobre a mudez da máscara, os olhos estão agora sós, mas estão lá. 

Diante de uma pessoa de máscara sou agora obrigado a olhá-la nos olhos, a fixar o seu olhar. Só neles poderei adivinhar a sua expressão, o que está a sentir, como está a reagir, se me reconhece ou me ignora. 

Sabemos tão bem falar com os nossos olhos… sabemos tão bem pedir, interrogar, confirmar, negar, reprovar, ralhar, consolar, serenar, elogiar, agradecer… amar… com um simples olhar! Um olhar fixo ou alheado, uns olhos abertos ou uns olhos molhados, são recados e mensagens, são perguntas e respostas, são cartas vivas, são dramas e comédias, são poemas.

Com a pandemia (valha-nos isso!), os olhos ficaram a ganhar, valem agora mais.

Agradeço ao Criador os olhos que me deu para poder olhar o olhar de quem me olha, porque nunca os olhos falaram tanto!

Rui Corrêa d’Oliveira
15 de Outubro de 2020