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Um “q” sem tropeçar, por Catarina Almeida

O Fernando não gosta muito de ler.

Ou melhor, ele até poderia gostar, se a leitura já lhe saísse fluída e ágil. Por enquanto, continua a tropeçar em algumas sílabas, em consoantes teimosas e ditongos traiçoeiros. Nada de grave, tudo normal para um início de 2º ano, sobretudo depois de um 1º ano cheio de peripécias virulentas. Imaginem, aprendeu a ler em tempos ensino à distância…

No outro dia, perguntei se queria ler e pedi-lhe que fosse buscar um livro à estante e – esperteza saloia! – trouxe um exemplar adequado a uma criança de quatro anos. Rimas fáceis, na sua maioria previamente decoradas… A escolha perfeita para… fazer boa figura! Invalidei a sua opção e fui eu buscar um livro para ele. 

– Toma, era o meu livro preferido no 2º ano – disse-lhe eu, ainda com expressão tirana.

O pequeno leitor não reparou nas cento e sessenta e oito páginas de Uma Aventura no Bosque e isso intrigou-me. Lá estava ele, a saltitar por poder ler o meu livro preferido, i mean, por poder fazer a experiência que eu – adulta, tirana, opressora! – valorizo como positiva ao ponto de ser a que mais gostava com a sua idade.

Genuinamente espantada por ele não ter objecções à minha proposta, fiz-lhe um marcador de livros e escrevi “para o meu querido aluno do coração”. Pois digo-vos que leu a frase em menos de dois segundos e nem sequer deu o habitual trambolhão no “quê de quá quá”.

E esta narrativa fofinha é para quê? Para me lembrar a mim e vos contar a vocês a descoberta diária que não pára de me surpreender. Ao fim destes anos, a verdade é que os miúdos estão cada vez diferentes e complexos, mas uma coisa não muda: o desejo de crescer na companhia de adultos vivos e entusiasmados com a própria vida. Só essa possibilidade permite a uma criança dar passos confiantes, até no meio das suas dificuldades.

Catarina Almeida