Num mundo apressado, por Mafalda Correia

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Num mundo apressado, por Mafalda Correia

Há uns meses tive a sorte de começar a acompanhar crianças em contexto hospitalar e pude relembrar-me de uma coisa muito simples.
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Chegam-me crianças bastante desafiantes às mãos, com dificuldades especialmente ao nível do relacionamento. Crianças com um modo diferente de se relacionar, comunicar ou conhecer as coisas à sua volta. A Faculdade deu-me muitas bases, mas quando estou com estas crianças numa sala, parece que nada do que aprendi resulta. Elas não reagem como eu quero, olham para onde eu não olho, são sensíveis a coisas que eu nunca pensei.
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Enfiei a cabeça em livros, li e reli artigos, pesquisei sobre o tema, mas parece que… não chega! Dei por mim obrigada a fazer a coisa mais natural: olhar para a criança. Uma coisa tão simples, mas que no nosso dia apressado é tão complicada de se fazer com simplicidade, com este propósito apenas: olhar. Dar tempo, compreender que o meu tempo não é necessariamente o tempo do outro, ficar contente com os pequenos gestos, com uma pequena demonstração de afeto, compreender os erros ou birras como uma ferida da criança que precisa de ser olhada e cuidada, e não apenas como “um modo de irritar, um comportamento desadequado para atingir o que quer”, e acima de tudo, puxar pela criança, confiar que ela é capaz, levá-la a compreender isso!
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Estas crianças, que são tão difíceis, ensinam-me a coisa mais importante da minha vida: o meu olhar sobre o simples, a relação PURA e DURA, a sensibilidade a tudo o que acontece. Que bonito é! Quando os pais me perguntam: “vai ficar tudo bem com ele?”, “tenho medo de não lhe conseguir dar o que precisa”, “isto que ele faz… é normal?”, eu não posso dar uma resposta certa, nem sei se algum dia poderei, mas sei que estas crianças são especiais, e confio que a relação é capaz de fazer muito pelo seu desenvolvimento. Às vezes, não é preciso enfiar a cabeça nos livros para responder a estes desafios, a verdadeira resposta não está lá, mas sim nos valores mais básicos da Pessoa, por vezes esquecidos no meio de todas as “competências” que vamos aprendendo.
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E por isto penso, que num mundo cada vez mais rápido, “eficaz”, sedento de respostas, certos e sucessos, é bom educar não apenas na teoria e resposta, mas acima de tudo na capacidade de duvidar, fazer perguntas, observar e esperar, readaptar, procurar, transformar, concertar. É preciso educar a arriscar, no dia a dia, no outro! A vida não é suposto ser uma correria, porque a pessoa humana… não o é!

Mafalda Abecasis Correia