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Malandro… mas filho, por Catarina Almeida

NOTA PRÉVIA

Este e os artigos das próximas semanas são inteiramente dedicados às aventuras de Pinóquio, a partir da leitura de Franco Nembrini e do Cardeal Giacomo Biffi. Começo por expressar a minha infinita gratidão por ter encontrado estes dois “pais” nesta leitura, tão profundamente decisiva para sobre a experiência da paternidade, tão urgente nos dias que vivemos.

Todos conhecemos Gepeto, o velho carpinteiro que fabricou um boneco de madeira, e lhe deu o nome de Pinóquio, porque desejava “um boneco maravilhoso, que soubesse dançar, fazer esgrima e dar saltos mortais”!

E todos nos lembramos que esse boneco fazia muitos disparates e o nariz lhe crescia sempre que mentia. Confesso que não era a minha história preferida. Havia sempre uma tia de voz aguda a relembrar que “ainda ficas como o Pinóquio, vê lá se te cresce o nariz…”. Era um daqueles temas que nos assombram e preferimos ignorar…

O que talvez não nos tenha passado pela cabeça é que as aventuras de Gepeto e do seu amado filho Pinóquio podem ser lidas com outros olhos e com outro coração. Com o coração de quem conhece o drama da liberdade dos filhos em busca da sua identidade. Com o coração de quem se reconhece na experiência dos pais que amam os filhos e desejam que sejam verdadeiramente livres e felizes. Que sejam meninos de verdade.

A nossa vida, tal como a do Pinóquio, pode ser uma aventura incrível na busca incessante de nos tornarmos meninos de verdade, da mesma natureza que o nosso Pai, capazes de escolher o Bem e, finalmente, ser livres. Existe um mundo para além das considerações moralistas sobre o nariz do Pinóquio, querem ver?

Tudo começa com um pedaço de madeira. Rugoso e inútil, como aliás pensou o Mestre Cereja, uma personagem desconhecida da obra de Carlo Collodi. É o primeiro que se depara com aquele lenho de madeira que vinha “mesmo a calhar” – calhou, que estivesse ali, sem desígnio, sem importância. Talvez servisse para fazer uma perna para uma mesa. Só que a madeira começou a falar. “Não me magoes”, “não me batas com tanta força”… 

Na sua perplexidade, o Mestre Cereja nega até ao último instante o que está a acontecer diante dos seus olhos: “Não está aqui ninguém! E se estiver escondido, vou tratar-lhe da saúde!”. Logo de seguida, entra Gepeto, pede-lhe um bocado de madeira e começa a história que todos conhecemos. 

O Mestre Cereja não era “necessário” para o enredo: não volta a aparecer e não tem nenhuma importância para o que vai acontecer. No entanto, é na posição do velho Cereja que descobrimos uma alternativa decisiva para a nossa vida de pais e educadores.

O nosso bocadinho de madeira, o lenho que queremos usar para fazer uma perna da mesa, afinal fala connosco, interpela-nos, revela-se outra coisa. É diferente do nosso projeto. E nós, firmes e hirtos no coração e nos pensamentos, batemos com ele até encaixar no que já tínhamos planeado. O Gepeto vê imediatamente um filho, com quem quer dar a volta ao mundo. Gepeto é um pai que deseja para o filho apenas a superabundância da sua própria vida.

O Mestre Cereja é um patrão, o Gepeto é um pai. “Ai, filho malandro!”, diz-lhe depois do primeiro safanão que Pinóquio lhe deu. Malandro, mas filho.

Que diferença abismal!… E que grande desafio para nós, educadores.

Aqui deixamos os primeiros momentos desta aventura para os próximos meses: um convite à leitura de “As aventuras de Pinóquio”.

Boa leitura e boa aventura!

Catarina Almeida