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Toda a gente conhece o Grilo Falante do Pinóquio: é a voz da consciência.

E toda a gente acha que ele aparece para moralizar o boneco desobediente e malandro, não é? Ou seja, todos achamos que a voz da consciência, no fundo, é um peso necessário, que distingue o bem do mal através do que “se faz” e do que “não se faz”. Ou haverá mais que isto?

– Eu sou o Grilo-Falante e moro neste quarto há mais de cem anos.

– Mas agora este quarto é meu – disse o boneco – e se quiseres fazer-me um favor, vai-te embora já, sem sequer olhares para trás.

– Eu não me vou embora daqui – respondeu o Grilo – se antes te dizer uma grande verdade.
O Grilo mora naquele quarto há mais de cem anos, como quem diz, é imanente ao tempo e ao espaço. Não entra e sai. Está.  

O Pinóquio é claro quanto a isso: “mas este quarto agora é meu”, como quem diz, mas eu quero ser dono deste tempo e deste espaço.

Perante isso, o Grilo nem hesita em lhe indicar qual é a sua missão: dizer-lhe uma grande verdade. Na verdade, o Grilo é “falante”, mas todos os animais do livro falam. Será que o Grilo é diferente dos outros?

O diálogo que se sucede na narrativa mostra a tensão permanente entre o desejo de correr atrás das borboletas e de trepar às vezes, por oposição à escola – “aquilo que acontece com todas as outras crianças”.

É engraçado notar que o Pinóquio deseja uma coisa boa. Ele não quer faltar à escola para assaltar bancos, nem para andar à bulha com outros meninos. Ele só quer correr atrás das borboletas e isso é muito interessante para ajudar a superar a ideia moralista e bafienta da voz da consciência.

– Ai dos miúdos que se revoltam contra os pais e que abandonam por capricho a casa paterna! Nunca se darão bem neste mundo e, mais cedo ou mais tarde, irão arrepender-se amargamente.

Este é o derradeiro argumento do Grilo. Apela ao grande horizonte de bem e que a vida de Pinóquio pode ser: filho. 

Em momento algum o simpático insecto invoca “regras”- tens que ir à escola ou obedecer ao teu pai just because, é assim e pronto.

Há mais: trata-se de descobrir o bem que nos distingue e marca desde o início do tempos e que habita “neste quarto”, com o Grilo-Falante, há (bem) mais de cem anos.  

E a pergunta que fica é sempre a mesma: vale mais a pena ser filhos ou correr atrás de borboletas? Qual é o bem, neste mundo? Aceitar os sacrifícios de ser filhos, obedecer, ir à escola e participar na vida na casa do pai ou fazer o que nos apetece, mas sozinhos, porque ninguém pode tocar na nossa liberdade? O que é, afinal, a liberdade?

O Grilo que não entra e sai, que lá está, na casa do pai, há mais de cem anos, acaba esta cena a levar uma machadada fatal. Como veremos mais à frente, nem a maior violência, nem a pior circunstância pode calar uma voz que está sempre presente. Só uma voz presente no-lo pode recordar. Uma voz Falante que não se cala, para gritar a verdade que está no coração de cada um de nós.

Catarina Almeida
Letizia Ortisi