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Pois é preciso dizer que, enquanto todos os homens, quando sentem pena de alguém choram ou, pelo menos, fingem limpar os olhos, Papa-Fogo, sempre que se enternecia a sério, tinha o hábito de espirrar. Era uma maneira como outra qualquer para dar a conhecer aos outros a sensibilidade do seu coração.

As Aventuras de Pinóquio, Carlo Collodi

O Pinóquio chegou ao Teatro das Marionetas, conheceu “os seus irmãos de madeira” e fez uma grande descoberta: há quem tenha pai, como ele, e há quem tenha dono, como os seus irmãos. E nós também podemos fazer uma descoberta: quem não tem pai, quem não vive com a consciência de um filho, é forçado a viver subjugado por um dono ou por um patrão.

O que é a consciência de ser filho? Será uma vã filosofia ou um esforço de optimismo para nos sossegar o drama humano? Creio que a simplicidade da marioneta de Collodi nos confirma que, mais do que palavras bonitas, estamos diante da experiência mais verdadeira que todos fizemos ou fazemos. Não é uma teoria, mas sim um tesouro bem guardado, que pode agora resplandecer para iluminar tempos tão conturbados. E acontece logo algo inesperado.

De tal forma a paternidade está presente como experiência definidora do pequeno Pinóquio, que até o enorme homenzarrão medonho e assustador se comove quando o boneco grita pelo Pai. É particularmente simpático que o Papa-Fogo – assim se chamava – espirre em vez de chorar. Mas Collodi explica: é uma maneira como outra qualquer! Qualquer sensibilidade, qualquer um “dos bons”, qualquer um “dos maus”, qualquer um reconhece a força de um filho que pertence ao seu pai. Que grita por ele e que treme ao pensar que o desiludiu ou entristeceu. 

O que distingue um pai de um dono? É fácil, é a diferença entre o Papa-Fogo e o Gepeto.

O primeiro é dono do teatro e das marionetas; é ele que define quando começa e quando acaba o espetáculo, quem vive e quem morre. É ele que manda naquele pequeno mundo em miniatura onde as marionetas parecem agir de forma livre, mas na verdade seguem um guião. 

Só a chegada do Pinóquio parece trazer uma mudança: o boneco de madeira não é mais uma marioneta no teatro do Papa-Fogo. Ao princípio, mistura-se com os outros bonecos, é verdade, mas ele é livre para se ir embora – depois de várias peripécias, claro, porque a luta pela liberdade nunca é fácil. Nem o Papa-Fogo consegue disfarçar quando é confrontado com o amor de um pai: tem de deixar o Pinóquio ir embora.

Só o amor de um Pai, que nos ama assim como somos e, portanto, sem tentar ser o patrão da nossa liberdade, nos torna verdadeiramente homens e homens livres. 

Catarina Almeida
Letizia Ortisi