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O mais precioso dos milagres, por Catarina Almeida

– Ó linda menina, abre a porta por favor! – gritou o Pinóquio quase sem forças. 

Mal acabou de pronunciar estas palavras, caiu no chão, quase morto, cansado e cheio de frio. Quando a menina de cabelo azul o viu assim, encheu-se de pena dele e bateu palmas por três vezes.

– O que manda a minha Fada? – disse o Falcão que apareceu a bater as suas asas enormes.

– Vai ver aquele pequeno que está caído lá ao fundo do bosque.

O Pinóquio foi enganado pelo Gato e pela Raposa e está em mau estado. Teve de correr muito para fugir aos assassinos e estava quase morto. Não foi por falta de aviso: entretanto até tinha reaparecido o Grilo com “as tretas do costume”, mas o sonho do Campo dos Milagres ganhou contra aquela voz maçadora e incómoda que sugeriu ao boneco que voltasse para casa. Ele decidiu que não: queria seguir o sonho da prometida Terra dos Patetas.

Mais uma vez, a querer correr pelos seus próprios pés, certo de que a sua ideia é a melhor. O problema não a ideia ser boa – até que nem é má: cinco moedas transformadas em dez, cem, mil… sem ter de suar nem um minuto? Não me parece mal. Só que a verdadeira questão da aventura do Pinóquio é a sua falsa autonomia, o querer sempre afirmar a sua vontade, desligada da relação com as pessoas significativas que vai encontrando.

Assim, o Pinóquio fica sozinho e entregue só às suas ideias; no entanto, fica também à mercê das suas forças e capacidades. Bem sabemos o que isso significa na nossa vida e para o Pinóquio não é diferente: sozinhos, sentimo-nos desprotegidos, incapazes, caídos no chão, “cansados e cheios de frio”.

Além do cansaço solitário, do medo e do frio, ficamos mais expostos às armadilhas dos ladrões e passamos a olhar com desdém para aquelas “tretas do costume” que nos dizem os grilos que cá andam “há mais de cem anos”.

Quando pensamos nos nossos filhos e alunos, torna-se ainda mais claro. Queremos que corram sozinhos pela fantasia das excelentes ideias ou que possam encontrar uma linda Fada Azul que se comove com o nosso cansaço e imediatamente bate três palmas a chamar uma multidão de amigos para nos ir resgatar ao fundo dos bosques?

Num tempo como o nosso, em que domina a desconfiança – entre nós, das notícias, dos governantes, das vacinas…-, torna-se ainda mais urgente identificar as Fadas e os Falcões com quem podemos partilhar até o ingénuo desejo de encontrar um Campo dos Milagres. Quase sem reparar, cedo ou tarde veremos que a amizade com esses seres misteriosos é o mais precioso de todos os milagres.

Catarina Almeida