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Transformar a madeira em verdade e bem, por Catarina Almeida

E vitória, vitória, acabou-se a história.

Chegados ao desejado finale e cá estamos. O Pinóquio dedica a sua vida a trabalhar para sustentar o Pai e está disposto a trocar um belo fatinho por umas moedas para ajudar a Fada e os seus tratamentos no hospital. Estava bem assim. Aprendeste a lição, seu malandro, e ficávamos todos contentes. Só que a história não acaba assim. Certa noite, o boneco de madeira vai-se deitar e sonha com a Fada, que lhe traz uma boa notícia:

– Muito bem, Pinóquio! Graças ao teu bom coração, perdoo-te todas as diabruras que fizeste até hoje. Os filhos que cuidam amorosamente dos pais nas suas doenças merecem sempre muito afecto. Serás muito feliz!

Nessa altura, o sonho acabou, e Pinóquio acordou de olhos bem abertos. Agora imaginem qual não foi o seu espanto quando, ao acordar, viu que já não era um boneco de madeira, mas que se tinha transformado num menino como todos os outros. 

Graças ao teu bom coração. Não nos enganemos. Não foi graças ao teu bom comportamento… Alguém acredita que depois de o Pinóquio se transformar num menino de verdade, nunca mais se vai portar mal? Quem de nós pode dizer isso com certeza… antes de mais sobre si próprio?

Ao longo destes meses, o maior desafio na proposta das aventuras do boneco mais famoso do mundo, foi a tradução do original “un ragazzino perbene”. Numas versões, escolhem um menino bem-comportado, outras um menino de verdade; outras ainda, um menino bom, um menino “como deve de ser”… É difícil de decidir, mas todo este exercício nos coloca numa perspetiva vantajosa para conquistar um olhar mais purificado junto dos nossos filhos e alunos.

Perbene, para o bem. Pinóquio foi transformado num menino em que a coisa mais importante de tudo é que está feito para o bem. É uma questão linguística? Nem pensar. Todo o trabalho dos “educadores” do boneco – Gepeto, a Fada, o Grilo… -, dedicam o tempo e a paciência a ajudá-lo a descobrir o verdadeiro significado de estar feito para o bem. Damos muita atenção ao “bem” que se faz ou que não se faz, passando por cima da comoção e da contemplação daquilo que o coração deseja realmente.

Foi também isso que descobri como educadora ao longo deste ano cheio de solicitações exigentes e até dramáticas. O horizonte da nossa missão está todo e sempre na companhia que podemos fazer às crianças e às famílias na descoberta apaixonante – e, por vezes, dolorosa – de que estamos feitos para o bem. Só a contemplação deste mistério permitirá, no tempo, transformar a nossa “madeira” em verdade e bem.

Catarina Almeida