Fazer crescer… o quê?, por Catarina Almeida

Manifesto FMU 2021/22
01/10/2021
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Fazer crescer… o quê?, por Catarina Almeida

“Educar – em qualquer idade – é fazer crescer”. Eis as mais famosas palavras de Maria Ulrich. Mas fazer crescer… o quê? 

Há várias opções!

Fazer crescer… as competências?

Fazer crescer… a inteligência cognitiva e emocional?

Fazer crescer… os conhecimentos teóricos? E técnicos? E práticos?

Sim, fazer crescer tudo isso, e muito mais, se tudo isso fizer crescer… a pessoa. E o que distingue a pessoa senão a permanente inquietação, desejosa de descobrir as coisas mais importantes da vida, testemunhadas por grandes poetas, por feitos históricos, por teoremas geniais, por representações comoventes, enfim, por tudo o que organizamos em currículos e programas, pelo valor que têm para nós e que pomos em diálogo com o coração dos nossos alunos.

Numa sala de aulas presencial do 1º ciclo, algures em 2021…
– Professora, posso ir à casa de banho? – pediu o Nuno.
– Espera um pouco. Termina primeiro o que estás a fazer, pode ser?
Passado nem cinco minutos, vejo o braço da Marta no ar.
– Professora, posso ir à casa de banho?
– Podes, claro – respondi calmamente, com o sorriso de quem antecipa um motim infantil.
– MAS Ó PROFESS…
Ainda o Nuno não tinha acabado a sua frase de compreensível indignação, a Vera disse:
– Nuno, deixa. Já reparaste que a Marta é nova cá na escola e nunca tinha falado na sala?

Claro, a história é – como habitualmente – um tanto ou quanto fantasiosa, mas confesso-vos que eventualmente eu saltaria de alegria interior a ouvir a minha hipotética aluna Vera. Mas o que tem isso a ver com fazer crescer a pessoa? Não se trata de separar os conhecimentos da dimensão dos comportamentos humanos (pode-se, não se pode), ou talvez pior ainda, de transformar as regras numa aprendizagem a par do inglês ou da educação física. Nada disso.

É que, como adultos, nós organizamos regras necessárias para a convivência e o funcionamento adequado das rotinas; nós selecionamos conteúdos e propostas válidas para oferecer momentos de aprendizagem e conhecimento significativo; nós – pais e professores – somos uma comunidade de sentidos e significados que tem a responsabilidade de cuidar da humanidade dos nossos filhos e alunos, sem perder o horizonte da sua existência. Não é uma questão apenas de comportamentos. Trata-se de um olhar agudo e certeiro, capaz de intercetar a humanidade das novas gerações.

Na Marta crescerá o protagonismo que vence a vergonha; no Nuno crescerá o rigor de terminar tarefas e descobrir que existe um bem na ordem das coisas; na Vera crescerá a capacidade de empatia e amizade com os outros. Porque – e se! – foram olhados assim.

Nas nossas creches, nos nossos jardins de infância, nas nossas escolas e casas, fazer crescer passa sempre por, através da nossa vida transparente, acender o coração das pequenas pessoas que nos são confiadas, para que a relação apaixonada que estabelecem consigo, com os outros e com o mundo, lhes possa oferecer um caminho de satisfação e gratificação. Que lhes possa encher o coração, tal como enche o nosso.

 

Catarina Almeida