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O bem é tão pouco atraente que tenhamos que jogar com o medo do mal?

Li esta frase no primeiro dia do ano. Começou bem, diria…

É uma reflexão de Adrien Candiard, a propósito da liberdade, e tornou-se o meu maior desejo para 2022.

O barulho de fundo que nos atordoa nas notícias e nas redes sociais, muitas vezes sem repararmos, tende a colocar-nos numa postura defensiva e amedrontada. Dei por mim a pensar quantas vezes escolhemos o mal menor ou não nos atrevemos a desejar em grande, a arriscar um horizonte, porque vivemos num mundo em que o medo nos ameaça subtilmente, sem se apresentar formalmente, mas sussurrando em vozes mais ou menos conhecidas.

Com as crianças, usamos a mesma cartilha. Mas são as próprias crianças que nos ajudam a retomar o sentido de uma vida mais livre: quando é que não têm medo e sobretudo medo do mal?

Quando têm medo do escuro… Chamam por nós. E muitas vezes nem pedem que acendamos a luz, mas apenas que fiquemos ali. A presença do pai, da mãe, é uma luz maior que as luzes de presença.

Quando têm medo do cão grande e da sua bocarra… Chamam por nós. Correm para o nosso colo e trepam pernas e tronco acima até se refugiarem, se preciso for, em cima da nossa cabeça.

Quando têm medo de uma represália, justa ou injusta… Chamam por nós. Ó mãe, é que… Ou aninham-se no colo antes de se decidir pela confissão ou pela justificação.

Os exemplos infantis parecem sempre simplificações, mas creio que são um dos melhores recursos que temos para viver e construir numa realidade como a actual, que nos preocupa, nos causa perplexidade, insegurança e incerteza.

E nós, por quem chamamos e por que motivo chamamos? Quais são os lugares de presença cheias de luz a que nos ligamos quando as pernas tremem e o coração vacila? Que experiência de bem inabalável e indestrutível, renovado e imprevisto, apesar de conhecido e familiar? Que experiência fazemos nós, adultos, que nos permite viver sem cair no medo que nos assusta?

Como adultos, como educadores, como homens e mulheres livres e responsáveis, podemos responder sobre nós próprios e sobre os nossos filhos e alunos: como respirar e pôr mãos à obra, sem medo, atraídos pelo bem?

Este desejo para 2022 rapidamente se transformou numa tarefa, mas daquelas que dão fôlego e entusiasmo à vida. Bom ano!

Catarina Almeida