Vale a pena ser professor?, por Catarina Almeida

O problema é a liberdade, por Catarina Almeida
16/03/2022
Comunicado | Padre João Seabra
04/06/2022
Ver tudo

Vale a pena ser professor?, por Catarina Almeida

E eis que finalmente uma pergunta crucial está na ordem do dia: como atrair os jovens para a carreira docente, para que possam ser os educadores e professores do futuro?

Podemos discutir os ziguezagues políticos e ideológicos das últimas décadas, em que a educação e a formação saltaram como batatas quentes de mão em mão, sem nunca encontrar estratégias e compromissos construtivos. A ousadia corajosa e competente dos governantes é urgente e necessária, mas a responsabilidade por este problema é de todos nós, adultos, escolas, associações e quaisquer cidadãos ou corpos intermédios com visão e desejo de futuro.

Desde que me lembro que quis ser professora. A minha história não é original. Tantos amigos poderão contar o mesmo: juntar os bonecos em cima da cama, improvisar uma secretária, fingir um quadro de giz, abrir um livro e dizer “Ora bem! Hoje vamos aprender a letra “t”!”. Há trinta anos como hoje, é comum encontrar este “faz de conta” nas brincadeiras das crianças.

Nem todas as crianças que brincaram assim quiseram ser professores. Claro que também brincavam aos médicos, aos supermercados e aos pilotos de aviões, porque a possibilidade de crescer à luz de uma missão grande e importante como as dos pais, as dos avós ou as dos senhores que se vê na TV e nos livros, é sempre um horizonte que mostra a existência como uma aventura interessante.

Eu queria ser professora porque as minhas professoras eram o máximo. Nem tenho dúvidas. Os adultos que me rodeavam viviam a missão de educar as novas gerações com entusiasmo e dedicação invejáveis. As minhas educadoras e professoras eram humanamente fascinantes; os meus pais davam a vida com alegria para nos ajudar a crescer; as minhas avós, tios e tias davam catequese, organizavam as férias dos sobrinhos e levavam-nos a passear, com interesse verdadeiro em nos oferecer o melhor que tinham.

A gratidão da minha vida é ter encontrado adultos que viviam com a consciência da sua maior responsabilidade: nas palavras de Maria Ulrich, o futuro depende dos novos e os novos são o que for a sua infância. E a sua juventude, acrescento eu.

A falta de professores e a hesitação dos jovens na carreira docente tem seguramente razões políticas e culturais, mas não hesito em associá-la a uma carência mais profunda da nossa sociedade: adultos capazes de ser protagonistas e geradores de protagonismo junto dos mais novos.

Faltam professores porque falta paixão pela vida e pelos mais novos. E esta paixão não coincide com a obsessão ansiosa em que vivem tantos adultos em satisfazer todas as necessidades das crianças e em evitar que sofram e se confrontem com vida. Nada disso. Falta a paixão pela própria vida, antes de mais.

Para transmitir vida, é preciso ser vida, torna Maria Ulrich em nosso auxílio.

O incremento de competências asséticas, de possibilidades tecnológicas e um certo ceticismo existencial são algumas das falsas conquistas que nos conduziram ao ponto em que estamos.

Temos computadores nas escolas, atiramos as crianças e os jovens ao problem solving e ao critical thinking, dizemos-lhes que os adultos só estão cá para orientar materiais e recursos. E assim, pé ante pé, recuamos da relação testemunhal que os introduz ao que pode realmente interessar o coração das crianças e dos jovens: existirá algo nesta vida tão bom, tão bonito e tão verdadeiro, por que valha a pena dar a vida e contá-lo às próximas gerações?

Que é o mesmo que dizer, por que valha a pena ser professor?

Catarina Almeida