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Abóboras? Ai se a professora vê!, por Catarina Almeida

Está a chegar o Halloween. Começamos a ver abóboras, esqueletos e bruxas a esvoaçar… 

Na Escola onde trabalho, temos optado por não assinalar nem festejar o Halloween. Todos os anos voltamos ao tema e renovamos a decisão de não promover nem incluir qualquer referência ao Halloween. Temos considerado que não traz valor acrescentado à nossa proposta educativa e preferimos retomar algumas tradições portuguesas associadas ao Dia de Todos os Santos, como o Pão por Deus e os Bolinhos para os Santinhos. E assim vamos vivendo e convivendo pacificamente sobre este tema com as nossas crianças e as suas famílias.

Nisto, no outro dia estava com os alunos do 3º ano e um deles, nosso aluno desde bebé, disse baixinho para a colega do lado, a apontar para uma página do livro de inglês:

– Olha! Está aqui o Halloween! Ai se a professora vê!

– Porquê?

– Porque cá na Escola é proibido, já não te lembras?

Gelei. Desastre educativo? Exagero? A percepção do miúdo está na proibição e não no conteúdo da proposta que nos parecia estar clara desde os primeiros anos. Nessa semana festejamos Todos os Santos, falamos sobre os nossos familiares e amigos que já partiram, procuramos olhar para a vida no horizonte da eternidade. Escolhemos os Santos das salas e lembramos os nossos mortos com ternura e saudade, dentro de uma certeza alegre sobre o Céu.

É claro, bem sei, que a consciência afetiva de uma criança de 8 anos sobre uma coisa que é proibida consiste numa obediência natural e sincera, sem revelar necessariamente um ponto de objeção. Porém, a minha preocupação é mais profunda.

Percebi que é urgente dialogar sobre as razões verdadeiras que nos levaram – e continuarão a levar! – a não propor o festejo do Halloween, quando as montras, as televisões e toda a vida real ao seu redor está marcada por este dia. Com certeza que não se trata de ceder no que é mais verdadeiro, nem por sombras. No entanto, sinto que só isto é muito pouco.

Uma educação para ser inteira, que contenha um proposta cultural sólida, deve ser clara nos valores e critérios da identidade que afirma. Mas se não é capaz de penetrar na vida concreta do mundo em que vivemos, corre o risco de se reduzir ao conjunto de ideias certas ou erradas que uns e outros têm.

Qual é a alternativa? Como não gerar apenas um afastamento, mas conseguir chegar até ao ponto de uma consciência crítica?

O primeiro passo é uma abertura ao diálogo. Mais. Um desejo de diálogo e de partilha sobre as razões que nos levam a pensar isto ou aquilo. Para dialogar com tudo e com todos, temos de estar certos do que estamos a viver e oferecer. Temos de estar certos do que temos a dizer sobre a morte e sobre a vida. Sobre a possibilidade de uma vida eterna de Alegria e de Bem, que pode ser saboreada já no presente. E que essa certeza é tão firme e correspondente que não encontra lugar para uma festa de susto e de medo que invade os nossos olhos e ouvidos.

Depois, é preciso uma proposta clara. Por que motivo damos espaço à vida dos Santos na nossa Escola? Quem são os Santos? Por que razão nos convém a nós e aos miúdos dedicar dois, três, cinco dias a colocar o nosso dia-a-dia no horizonte da santidade dos que nos precederam? Porque, levando a sério o nosso coração, conhecemos bem o nosso desejo de dizer “Tu não morrerás!” em vez de brincar com os mortos assustadores.

Finalmente, é preciso ironia e estupidez natural. O Halloween está aí e já tomou conta das modas e das lógicas comerciais. Quer queiramos, quer não, os nossos filhos vivem neste mundo. E nós também. Se estamos certos da Beleza que lhes mostramos durante o resto do ano, podemos estar tranquilos em relação às escolhas que eles próprios farão à medida que crescerem…

Catarina Almeida