Efervescência por onde passava, por Catarina Almeida

Abóboras? Ai se a professora vê!, por Catarina Almeida
25/10/2022
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Efervescência por onde passava, por Catarina Almeida

A Maria e a efervescência por onde passava. Perdoem-me a ousadia de nomear “a Maria”, mas sempre a ouvi chamar assim. Ao longo da última década, encontrei e aprendi muito com os seus amigos e discípulos e disso vos procurarei contar. É por demais evidente que não seria eu a pessoa mais capacitada para o fazer; porém, não deixa de ser curioso que alguém da minha geração, nascida quase ao mesmo tempo que a Maria deixou este mundo, se deixe interrogar e provocar pela vida e o pensamento de uma Mulher como Maria Ulrich. Mais, que se deixe entusiasmar e educar – eis a palavra certa – pelo testemunho da grande educadora que a Maria foi, da grande mulher que a Maria foi. A efervescência por onde passava continua a borbulhar…

Dentro desta história efervescente, uma das pessoas com quem mais aprendi e que mais admiro é a Teresa de Castro Simas. E foi a Teresa que me introduziu à pessoa da Maria, orientando o meu olhar para as vidas que ela tinha tocado. Certo dia, deu-me a ler o que definiu como sendo a “melhor síntese alguma vez feita sobre a Maria”: «De sua Mãe, a escritora Veva de Lima, filha de Carlos Mayer, um dos “Vencidos da Vida”, herdou a Maria a criatividade e a fantasia”; de seu Pai, o Professor de Direito, Embaixador Rui Ulrich, recebeu a força das convicções e a fidelidade aos princípios»[1]. Foi o Padre João Seabra quem sintetizou assim a força das origens familiares de Maria Ulrich e é inevitável fazer aqui uma referência de gratidão e amizade profunda ao Padre João, que me convidou para a Direção da FMU, apostando e arriscando numa miúda evidentemente inexperiente e incapaz. Devo-lhe muito; esta confiança e elevada consideração são apenas uma pequena parte do que gostaria de lhe agradecer. O Padre João repetia assim o que vira a Maria fazer, quando o convidou a ele para dar aulas na Escola de Educadoras. São suas as palavras: «Conheci pessoalmente a Maria Ulrich quando, estando ainda no seminário, ela me veio convidar para dar formação religiosa na Escola de Educadoras. Impressionou-me desde logo esse seu gesto, pois a minha juventude e a minha inexperiência eram evidentes até para mim. Havia nela a certeza serena das pessoas sábias e a segurança ousada dos grandes educadores, hábeis em reconhecer no outro o que há nele de possibilidade e de promessa e prontos a arriscar a aventura da verificação»[2]. Foi o que a Maria fez, foi o que o Padre João fez. A primeira grandeza que conheci à Maria foi esta capacidade de transmitir olhares e atitudes de vida em vida, muito além de palavras.

A certeza serena da Maria, a segurança ousada da Maria e a prontidão da Maria para a aventura, eis as três dimensões da sua grande herança, acolhidas pela Teresa Simas, pelo Padre João e por muitas outras pessoas que aqui não mencionarei, porque seria impossível falar de todos. Refiro a Teresa e o Padre João pela minha história pessoal, sem pretender de forma alguma encaixar ou reduzir o alcance de um legado que não se consegue conter.

Para procurar a fonte dessa herança, o primeiro lugar precioso é o livro incontornável da Luísa Vian. O seu fascínio e a convivência próxima e amiga com Maria Ulrich dão à obra da Luísa um ritmo e uma consistência invulgares em trabalhos académicos. Foi neste livro que encontrei muitas respostas à pergunta que o título me empresta: «Quem foi Maria Ulrich»?

Muitos saberão responder bem melhor do que eu, mas interessa-me escavar respostas para a origem daquela certeza serena, daquela segurança ousada, daquela prontidão para o risco. A meu ver, são essas as dimensões da personalidade e da vida da Maria que mais falta fazem aos educadores do século XXI; são aquelas que tornam o seu contributo atual para um momento de crise da nossa educação e, por conseguinte, da nossa cultura. Perguntemos à Maria, como educar e gerar uma cultura de mais responsabilidade e de verdadeira liberdade?

  1. Certeza serena: a infância e a juventude

A Maria nasceu em Coimbra e, desde logo, se encontram sinais de uma vida destinada a fazer a diferença. Em 1908, no contexto de duas famílias – materna e paterna – pertencentes a uma alta sociedade cheia de regras e pressupostos, Veva de Lima vestiu a pequena Maria acabada de nascer de cor-de-laranja e Ruy Ulrich, nas palavras da filha “jovem e rígido professor universitário” decretou que não havia aulas nesse dia! Tudo estava encaminhado!

Com a implantação da república, a família muda-se para Biarritz, de onde a Maria tem as primeiras e longínquas memórias. Voltam a Portugal em 1914 e cá permanecem até à década de 30.

Por um lado, são tempos de mudança e de agitação: várias moradas, o advento da república, a guerra… Por outro lado, na casa Mayer Ulrich são tempos de uma vida social ativa, cheia de serões e festas que se enchem com pessoas das mais diversas proveniências. São tempos da efervescência que veio a marcar para sempre a vida da Maria; nela, esta inquietação transformar-se-á em certeza serena, como veremos.

Com 12 anos, parte para um Colégio interno em França. São anos de um “afastamento” que lhe causa “algum sofrimento”, mas que lhe «trouxe ao mesmo tempo alguns benefícios. Um constante esforço de adaptação aos meios em que se encontrava inserida deu a Maria Ulrich uma abertura e uma capacidade de movimentação em todos os contextos»[3] (cfr. Vian, p. 77).

É inevitável pensar que a tal certeza serena não está certamente desligada de uma solidez existencial, garantida por uma educação que não lhe poupou sacrifício. A serenidade de que falamos nada terá a ver, portanto, com ausência de empenho ou com uma certa indolência, mas antes com o reconhecimento de um valor nas circunstâncias que lhe eram oferecidas como possibilidade de amadurecimento.

É a própria Maria que no-lo diz: «Fiz a minha instrução no estrangeiro, onde passei quase metade da minha vida adolescente e jovem. Isso deu-me um certo alargamento de concepções e perspetivas. Certa desadaptação, também, a uma mediocridade que reina quando não se proporcionam motivações de grandeza onde, então, somos maiores do que ninguém. Mediocridade, para mim, foi sempre asfixiante e insuportável» (in. Manuscrito, 1985).

Quando penso na Maria Ulrich adolescente, nos Colégios em França, ou na Maria Ulrich jovem, em Londres, imagino-a profundamente observadora. Poderá parecer contraditório com a sua capacidade de realização e um certo “frenesim”, mas a sua vida mostra que não é assim. Penso na sua inquietação permanente, no seu desejo de grandeza, no seu anseio de superação e creio que foi exatamente esse o tempo de tomada de consciência de si, da sua humanidade, como que um tempo de incubação do seu coração, que viria a explodir já na vida adulta, sem ilusão sobre o horizonte do seu cumprimento. Se desejava tanto, só algo Grande poderia realizar esse desejo.

  1. Segurança ousada: a Ação Católica e o encontro com Júlia Guedes

No seu regresso a Lisboa, o vazio da vida de menina de sociedade toma conta dos seus pensamentos. Tem várias possibilidades; pode voltar para França, preparar projetos de intervenção social, mas o imprevisto encontro com a Juventude Católica Feminina, em especial com a sua então presidente, Júlia Guedes, muda o rumo dos acontecimentos. A Maria diz que este encontro falava mais “pela presença do que pela palavra”; a colaboração estreita com a Ação Católica a partir de 1938 testemunha precisamente esse desejo de pertencer a um lugar onde essa Presença está viva.

Dominada pela inquietação, por aquele desejo de grandeza exacerbado, pelo horror à mediocridade, a Maria encontra exatamente o que procurava, talvez sem o saber. Como às vezes numa ocasião aproveitada ou perdida se joga todo o nosso destino! A um convite da Júlia Guedes para proferir o discurso numa sessão solene da Ação Católica, dissera que sim, sem depois se dedicar convenientemente à respetiva preparação. Quando pediu à Júlia Guedes que a libertasse do compromisso, a amiga recusou-lhe tal possibilidade num tom “sereno mas irredutível” e confiou-lhe mais tarde que tinha insistido para “a conduzir a um caminho de rendimento mais fecundo”.

Fecundidade, eis a conquista de uma vida que encontra o seu lugar e pode finalmente frutificar. Todo o seu desconforto e desânimo com uma sociedade decadente e até beata e clerical é vencido pela Presença de Cristo numa realidade da Igreja viva e entusiasmante. Fecundidade: aí decide dedicar toda a sua inteligência e energia.

A “segurança ousada” é, a meu ver, o primeiro fruto de quem pela primeira vez sabe, como a Maria descobriu na sua adesão à JICF, que tem uma tarefa, que a vida é uma tarefa. Nela já não domina o vazio, mas sim a ousadia de empreender tentativas de resposta e de construção, a partir da relação com Cristo e a Sua Igreja.

Era preciso que todas nós o sentíssemos dolorosamente nas fibras da nossa alma e, num esforço determinado e rigoroso, ganhássemos a batalha nacional da nossa geração que é a de erguer Portugal, pela elevação do seu nível cultural e espiritual às alturas que merece. Mas como consegui-lo? Afinando a nossa sensibilidade superior e abrindo a nossa inteligência aos interesses universais e humanos, fugindo das preocupações comezinhas, das bisbilhotices, dos boatos… de tudo o que nos vai atrofiando a alma e nos mergulha num grau de mediocridade asfixiante (Maria Ulrich, 1953).

São anos de “uma escola de vida”, que colocou as bases do que viria a ser uma escola de educação. A JICF fora uma autêntica escola de educação. O seu método, o seu ambiente de amizade, de exigência mútua, de responsabilidade e participação geral, conduziam a uma (…) superação extraordinária… Era o que eu queria levar para uma Escola!

  1. Prontidão para risco: a Escola, o Colégio, a Casa, a Fundação.

Em 1950 acompanha a família na mudança para Londres e aproveita o tempo para idealizar a “sua” escola de educação, que vem a abrir em 1954. Se até aqui muitas outras pessoas poderiam ter apresentado factos e episódios mais relevantes e com mais credibilidade do que eu, para falar da Escola de Educadoras e do Colégio “O Nosso Jardim” seria preciso bem mais do que isso. Seria preciso mais tempo, mais conhecimento, mais convivência, mais relação. Confesso que se trata propriamente de um pudor perante uma história de mais de sessenta anos de serviço e missão na formação de milhares de educadores portugueses. Sobre este aspeto, remeto para quem poderá contar de dentro de uma aventura que educou milhares de crianças e realmente mudou Portugal. Limito-me a contar o que os meus olhos viram e vêem.

Há alguns anos, tive a oportunidade de entrevistar algumas das primeiras alunas da Escola, fiquei profundamente impressionada com o juízo comum que davam. A Maria e a sua Escola foram decisivas nas suas vidas. Como? Resposta unânime: porque foi assim que descobri quem eu sou, toda a potencialidade do que eu sou, aprendi a ir mais além, a superar-me.

O que sobressai em dezenas de gerações marcadas pelo encontro com um projeto educativo com o da Maria, com as equipas de professores que com ela colaboravam, é a fabulosa descoberta da irredutibilidade do seu eu. Tudo isto num ambiente de profunda estima intelectual, de respeito mútuo, de reconhecimento sincero.

A “prontidão para o risco” referiu-se à capacidade de arriscar, certamente, nos meios, nos recursos, nos projetos. Mas creio que se tratou de bem mais do que isso. Trata-se de arriscar nas pessoas, na sua inteligência e na sua capacidade de juízo, ou seja, de se jogar inteiramente numa relação crítica com a realidade, com as ideias, com as coisas, com os que nos rodeiam. Não subestimava, não relativizava, não desculpava, não era paternalista. Era educadora, na certeza de que “das três condições exigidas: ser, saber e saber fazer, o que sobressaía era o Ser” (Maria Ulrich).

A verdade, é que a Escola de Educadoras de Infância gerou uma cultura de educação em Portugal. E é verdade também que é urgente recuperar essa mesma cultura e a experiência que lhe está na base. Uma cultura marcada por tudo isto que se torna transparente se pensarmos nos dias em que vivemos, num ambiente marcado pela desconfiança, pelo confronto e pelo desrespeito pelas pessoas e pelas instituições.

Retomando a pergunta inicial, como pode a Maria ajudar-nos hoje a educar e gerar uma cultura de mais responsabilidade e de verdadeira liberdade? Fazendo como ela fez, olhando para o que ela fez. E, em jeito de conclusão, sublinho naturalmente as duas últimas realizações da Maria, que me parecem ser lugares concretos de construção de humanidade e de cultura.

Desde logo, a Casa anfitriã, dedicada à memória da sua família, na pessoa da sua Mãe. Toda a ação da Associação se tem orientado fielmente na perpetuação de um estilo e de uma sensibilidade cultural que faz crescer consciências e ambientes. Acresce o facto de se colocar como lugar estável, com raízes fortes e com capacidade de vida. Num mundo da cultura em que, por vezes, as iniciativas correm o risco da efemeridade ou da moda, aproveito para agradecer à Direção da ACVL a sua segurança ousada na promoção da memória da nossa fundadora.

Finalmente, e perdoar-me-ão o risco da autorreferencialidade, olhando para o que a Maria fez, a Fundação Maria Ulrich é e pretende continuar a ser o lugar que a fundadora desejou. Na sua última manifestação de vontade, a Maria desejou profundamente que existisse um lugar onde os educadores – quaisquer que sejam: pais, avós, professores, educadores, enfim, adultos conscientes da sua missão – pudessem continuar a encontrar-se para aprofundar o que de mais valioso a Maria nos deixou e que tanta falta nos faz hoje em dia.

A certeza serena sobre uma existência positiva e sempre desejosa de plenitude.

A segurança ousada no encontro com lugares de pertença verdadeira e geradora.

A prontidão para o risco que a educação verdadeira implica. O risco do encontro entre duas liberdades, entre duas personalidades, entre duas consciências feitas de um Mistério que se revela todos os dias.

Só assim poderemos honrar a efervescência da Maria e gerar uma cultura de Verdade, de Bem e de Beleza, que tanta falta faz a Portugal e ao mundo.

[1] In Maria Ulrich, a mulher que viveu um grande projeto, de Teresa de Castro Simas, Revista Acção Social CML, n/a

[2] In Prefácio a Encontro com Maria Ulrich no século XXI, de Maria do Rosário Lupi Bello e Maria de Fátima Vizeu Pinheiro, Tenacitas, p. 15

[3] Vian Alves, L. Quem foi Maria Ulrich. Tenacitas

Catarina Almeida