Uma questão de dentes

Anda para aí uma chinfrineira sobre o respeito pelas crianças, pelos seus quereres, pela sua intimidade, que oscilam entre o velho e bom “cala-te e come” e o “ó bebé, queres que a mamã te mude a fralda?”. Passei uma semana a pensar nisto e, embora seja claro que os extremos são caricaturas, é verdade que muitas vezes queremos uma teoria ou uma receita para lidar com temas como este.

Deve-se fazer assim ou assado? Deve-se perguntar à criança o que ela quer ou decidir o que é melhor para ela (que by the way nós sabemos e elas, tendencialmente, não)?

Deve-se dar muita atenção às crianças, ouvi-las sempre e no matter what ou só de vez em quando?

São imagens nem sempre realistas, claro. No entanto, o problema está aí: nas creches, nos jardins de infância, nas escolas, em casa, nos tempos livres… que relação queremos ter com as crianças? Impomos ou deixamo-las descobrir? E deixamos descobrir sozinhas ou propomos um caminho? E conduzimos ou orientamos a descoberta?

Recorro muitas vezes a um exemplo que me ajuda muito neste tema.

Como é que os nossos filhos aprendem… a lavar os dentes?

(partindo da premissa que todos sabemos o que acontece se os miúdos não lavarem os dentes desde pequenos…)

  • Antes ainda de os dentes estarem cá fora, já lavávamos as gengivas com mini-escovas e pastas a cheirar a bubblicious de morango, enquanto pensávamos que talvez fosse exagerado…
  • Depois, os dentes começam a nascer e a gente começa a dizer ó Martiiiiim mostra os dentinhos à tiiiiia! e a lavá-los cuidadosamente.
  • Mais tarde, pegamos nas mãos dos proprietários da dentadura e fazemos com eles, dez vezes  à frente, ao lado, em cima, em baixo…
  • A certa altura… eles começam a lavar os dentes sozinhos, sob o nosso olhar atento e recomendações tipo e a língua também!
  • E, finalmente, o nosso olhar vai-se tornando uma verificação casual e esporádica até à total autonomia do fifi.

Quem diz os dentes, diz os atacadores, o banho, a linguagem… Tudo o que oferecemos aos nossos filhos e alunos, fazemo-lo na primeira pessoa, entregamo-lo como possibilidade de felicidade. Suponho que ninguém olhe para as crianças e diga: ai meu rico manancial de capacidades, quando as dominares terás um perfil de bom cidadão cheio de competências. Mas já ouvi dizer muitas vezes: tu , meu rico menino, serás mais feliz com a boquinha fresca e lavada, os dentinhos todos impec, os sapatos engraxados e apertados, cheiroso e bom comunicador

Já pensaram na quantidade de problemas que evitaríamos se a nossa relação com as crianças e os jovens fosse mais parecida com a questão dentária…?

Nota final: dedicado à minha mãezinha, muito grata pelos gritos da cozinha para a casa de banho a perguntar se eu já tinha lavado os dentes…

Catarina Almeida