Vamos lá falar de liberdade

O futebol tem-me ajudado a perceber muitas coisas que acontecem na minha vida. É verdade que o desporto reflete muitas vezes o que significa viver. E viver em liberdade torna-se então um ponto fulcral no trabalho em equipa.

Muitos jogadores reclamam liberdade para si mesmos quando sentem que estão presos à forma de jogar de uma equipa e muitos analistas referem que aquele jogador é bom quando está livre para fazer o que quer. A noção de liberdade que o futebol me tem ensinado é um pouco diferente, talvez por se tratar de um desporto coletivo, que simboliza bem o que é viver em sociedade.

Todos nós precisamos de um caminho, de padrões, de pessoas e pertencemos a um certo contexto. Na mesma linha de raciocínio, o futebol vive de regras, de comunicação com os colegas e de uma forma de jogar comum entre todos. No jogo, no treino e no trabalho diário de um futebolista ou de um treinador, torna-se claro que a liberdade vive de regras. A obediência é um enorme ato de liberdade. É o descobrir que as normas são para mim, para que eu possa ser melhor.

É por essa razão que, quando um jogador está alheado ao trabalho de equipa, movimentando-se apenas para onde quer dentro de um campo, se perde no vazio, e, por consequência, perde o grupo também. Porque essas tais regras, se forem bem incutidas, tiram o melhor de nós mesmos! E potenciar as pessoas não é a razão pela qual nasce um grupo?

Cito agora Agostinho da Silva: “Se dizes: tens de ser livre, prendes-me ao contrário”. E os desportos coletivos vivem disso mesmo. De jogadores que precisam de um caminho, de pessoas que necessitam umas das outras, de uma liberdade que é, ao mesmo tempo, plena e dependente. O jogador que consegue ser livre é aquele que está verdadeiramente agarrado à equipa e à forma de jogar da mesma. E o rendimento provém dessa mesma liberdade.

O Papa Bento XVI, ao falar sobre futebol, refere que “(…) este simboliza a própria vida: ajuda o Homem a ganhar domínio sobre si mesmo e assim, superando-se, o Homem torna-se mais livre; treina a disciplina, obriga a subordinar o próprio ao todo.”

É na escolha de colocar um bem maior no que fazemos que somos efetivamente livres.

Francisco Guimarães