Adultos do mundo: uni-vos!

Adultos de todo o mundo: uni-vos!

As portas das escolas portuguesas reabriram.

Para muitas famílias, setembro é um mês de recomeços e reencontros.

Maria Ulrich, grande educadora do século XX, escrevia no início do ano letivo em 1975:

“Dar um passo, o mesmo passo sempre renovado. Assim vivemos, assim crescemos, assim convivemos, procurando acertar critérios, encontrar soluções melhores, sem excluir controvérsias e desacordos, no respeito mútuo e na confiança recíproca.”

Cinquenta anos depois, a pergunta impõe-se: um passo para onde?

Do outro lado do mundo, centenas de alunos iniciaram o ano escolar sob o alarme da tragédia: o tiroteio na Annunciation Catholic School, em Minneapolis, vitimou duas crianças, feriu gravemente várias pessoas e dilacerou uma comunidade educativa. A ferida alastra-se às famílias, aos amigos e a uma sociedade marcada pelo liberalismo e pelo individualismo.

Poucos dias depois, em Lisboa, o acidente do Elevador da Glória comoveu a cidade e o mundo pela carga de impotência e injustiça que evocou. A estes episódios somou-se o assassinato de Charlie Kirk e campanhas culturais e eleitorais em que raramente se ouviu falar de bem comum, do valor da pessoa ou da dignidade da vida familiar, social e profissional.

Ao recomeçar mais um ano letivo, pergunto: para onde vão os nossos passos e que renovação exigem? Como vivemos? Como crescemos? Como convivemos? Que critérios estabelecemos? Que soluções procuramos? Qual o lugar das controvérsias e dos desacordos? Será possível vivê-los verdadeiramente no respeito mútuo e na confiança recíproca?

O individualismo – a afirmação da pessoa desligada da comunidade que a sustenta e ajuda a crescer – tem consequências graves. A solidão existencial de muitas crianças e jovens manifesta-se em perplexidade, desorientação e dor. Vemo-la nas páginas dos jornais e nas plataformas digitais: depressão, distúrbios mentais e físicos, automutilação. Multiplicam-se relatórios técnicos, enquanto pais e professores se sentem impotentes perante fragilidades que não sabem como acolher.

Adultos de todo o mundo: uni-vos!

Uni-vos na consciência da vossa (da nossa!) própria fragilidade. A emergência educativa começa em nós, tantas vezes ignorantes da nossa própria humanidade. Tememos as emoções e tentamos geri-las; acreditamos que valemos apenas pelo que fazemos, numa lógica perversa de desempenho; convencemo-nos de que controlamos a vida através da vontade e dos projetos.

Assim, os nossos filhos crescem com medo: medo de falhar, de não estar à altura, de não corresponder às expetativas, de não alcançar o perfil que lhes é exigido de fora.

Que passo podemos dar, então, para recuperar uma humanidade mais verdadeira?

Maria Ulrich falava de uma nova forma de viver, desfiada por um grande ideal.

  1. Desejar sempre mais, com “inconformismo que não permite quedarmo-nos satisfeitas e paradas perante o que existe; querermos sempre mais e melhor”.
  2. Personalismo, “na fidelidade a nós próprios, no desempenho da nossa independência moral e do sentido da responsabilidade (…), capaz pois de nos desapegar de nós próprios e abrir-nos para os outros e acolhê-los na disponibilidade e no amor”.
  3. Atitude social, “a que só pode ascender aquele que se encontrou a si mesmo e conseguiu a segurança (…), que é capaz de transpor os seus interesse restritos para se alargar numa projeção generosa ao interesse dos outros”.

Unamo-nos na redescoberta de que fomos feitos para desejar muito, para sermos companhia uns dos outros e, assim, testemunhar às novas gerações que a Vida é uma aventura imperdível.

Catarina Almeida